
Lona armada. Público cheio. Cochichos.
No camarim lotado, malabaristas fazem uma prévia do número ensaiado ao conseguir se maquiar no minúsculo cubículo de 10m2, dividindo espaço com palhaços,contorcionistas, os quais se viram legal nessas circunstâncias, mágicos e assistentes de palco.Tabalipa está lá: cabeça a mil.Mais um dia de trabalho.
Ele não lembra como a carreira começou, só lembra que foi há muito tempo com o pai,que outrora foi o palhaço mais conhecido da cidade de Velha Nova.Tabalipa Jr,como é conhecido Gérson Silva, não gosta de ser palhaço, mas diz que, como não aprendeu outra coisa ou algo mais rentável,vive do martírio que é o ofício de fazer a população de Velha Nova sorrir.
As cortinas se abrem. Tabalipa aparece: apático, mal maquiado e bastante mal humorado, pois no dia anterior tinha ido ao dentista, que cavucou bastante na boca ranzinza de Gérson. A dor no premolar inferior esquerdo é tão forte que mais parecem lancinantes golpes de picareta no seu queixo. Falando em picareta, é o apelido de Kalil de Souza,o outro palhaço que faz dupla com Tabalipa Jr.
Como se não fosse bastante para Tabalipa, suas cenas de humor são marcadas por verdadeiras surras que ele leva com as luvas de boxe gigantes de Picareta.
O fato é que, embora Tabalipa Jr. não goste de se apresentar e reze para que cada apresentação seja mais ligeira do que parto de girafa,elas são demoradas e dolorosas,mas o público adora.Simplesmente idolatra o desgraçado do palhaço.
Picareta é a antítese de Tabalipa como profissional. Passa o dia ensaiando,se preparando,capricha na maquiagem, porém não tem o carinho do público, pois não nasceu engraçado. Então,para descontar,bate pra maxucar mesmo em Tabalipa,que da última vez que se apresentaram falou para Kalil que se ele não maneirasse nas pancadas iria lhe dar umas boas bordoadas.
Três semanas depois, no dia 31 de Fevereiro, aniversário da pacata cidade de Velha Nova, o circo Internacional de Velha Nova apresentaria um número espetacular: O duelo de espadas! Feito entre Tabalipa Jr. e Picareta e tendo como prêmio um saco cheio de dindins de coco queimado.
Soa o gongo, os dois já discutem desde o camarim porque picareta pôs pó de mico na maquiagem de tabalipa que, atordoado ao pegar sua espada (teoricamente seria de plástico) sem querer pega a de Clézio,o engolidor de espadas.
O duelo começa: picareta inicia dando golpes com sua espada de plástico na parte trazeira do ‘hardware’ de Tabalipa que, pacientemente, agüenta os golpes diversos e maldosos do “companheiro” de cena.
O público vai ao delírio com o espetáculo que os dois dão. Senhoras velhas, de varizes nas pernas se urinam nos vestidos de xita.Crianças de abdômen travado de tanta gargalhada.Eis que os atores se preparam para o último momento,onde picareta dá uma pirueta e um mortal,cravando sua espada de R$ 1.99 na barriga de Tabalipa. Este, por sua vez, decide mudar o curso e resolve ele mesmo dar o mortal e, pela primeira vez na historia, vencer o chato do Picareta. Achou que o publico iria ficar surpreso e gostar bastante. Então procurou executar o movimento com maestria. Pegou impulso, correu e começou a fazer plasticamente o movimento, o público se preguntava:
- O que ele está fazendo?
Público em silêncio. O palhaço Tabalipa Jr. pela primeira vez dá um sorriso d’alma. Conseguiu finalmente vencer o seu arquirrival picareta.Só que venceu para sempre.Kalil encontrava-se em óbito,conseguiu morrer de rir, literalmente.
Triste como sempre e desconsolado, Gérson Silva, o Tabalipa Jr, espera a polícia e o IML chupando um saco de dindins de coco queimado.